Hospitalidade
/Museu Aberto
Residência Artística Volante
/MasKarada

[…] a hospitalidade em si, abre-se ou está aberta previamente para alguém que não é esperado nem convidado, para quem quer que chegue como um visitante absolutamente estranho, como um recém-chegado, não identificável e imprevisível, em suma, totalmente outro.

Derrida; Dufourmantelle. Da hospitalidade. São Paulo: Escuta, 2003, p. 15.

É com alegria que apresento o catálogo da 4ª edição da residência artística Volante/MasKarada – Hospitalidade/Museu Aberto, projeto organizado por mim e que reuniu doze artistas em Britânia/GO, entre os dias 17 e 28 de setembro de 2023. A residência teve como temática a hospitalidade e a hostilidade. Os projetos artísticos foram desenvolvidos a partir da leitura do livro Da hospitalidade: Anne Dufourmantelle convida Jacques Derrida a falar da hospitalidade.

O aspecto mais importante da obra é a reflexão filosófica sobre o conceito de hospitalidade e suas implicações éticas, políticas e linguísticas. O livro aborda as questões da alteridade, da fronteira, da lei, da violência e do desejo que envolvem a relação entre o hospedeiro e o hóspede, entre o cidadão e o estrangeiro, entre o eu e o outro. O livro também explora os paradoxos e as ambiguidades da palavra hospitalidade, que pode significar tanto acolhimento quanto hostilidade, tanto generosidade quanto exclusão. Trata-se de um diálogo entre a filósofa e psicanalista Anne Dufourmantelle e o filósofo Jacques Derrida, baseado em textos de Platão, Kant, Freud, Lévinas, entre outros, para analisar a hospitalidade como tema fundamental da ética e da política contemporâneas.

Hospitalidade não é novidade em meus projetos. A temática também tem sido trabalhada pelos artistas convidados por mim para participarem da residência Lugar de Suyan – projeto anual que realizo desde 2018, quando abri a primeira edição da residência artística Hospitalidade, no povoado de Olhos d’Água.

Já a residência artística Volante é um projeto realizado desde 2019 e se caracteriza por um grupo de artistas que viaja por cidades da América Latina. E o Coletivo Maskarada surgiu em 2020, como resultado da pandemia de Covid-19. A residência artística Volante foi pensada para ser feita pelos artistas do Coletivo MasKarada, por isso o nome Volante/MasKarada. Além de oito membros do coletivo, tivemos quatro convidados.

Participaram desta edição artistas de Goiânia, Alto Paraíso, Pirenópolis, Olhos d’Água, Brasília, Santos e Rio de Janeiro. São eles: Adriano de Moraes (Bicha Branca da Mata), Alexandre Paes, Arthur Scovino, Biophillick, Cintia Falkenbach, Clarisse Tarran, Eduardo Mariz, Gisel Carriconde Azevedo, Isabela Couto, Laura Dorneles do Amaral, Phil Jones e eu, Suyan de Mattos.

Durante os dias de residência, entre outras atividades, os artistas convidados desenvolveram seus projetos, visitaram instituições de ensino urbanas e rurais de Britânia, deleitaram o olhar com o Rio Araguaia na cidade vizinha – Aruanã, desfrutaram da arte dos povos originários Carajás e receberam estudantes do Ensino Médio para conhecer os processos artísticos in loco.

A residência artística Volante/MasKarada em Britânia buscou estabelecer uma dinâmica relacional com os habitantes da cidade, rompendo as possíveis barreiras entre os diferentes. A produção resultante foi exposta no Museu de Arte de Britânia, numa mostra coletiva que propôs um diálogo entre os artistas e a cidade. A dinâmica da Hospitalidade/Museu Aberto incentivou o contato entre pessoas comuns e anônimas, artistas e britanienses.

A casa foi o lugar do intercâmbio de ideias, conversas, reuniões, do pensar e do inventar, assim como o espaço de produzir e realizar, do fazer inventivo, artístico e sensível. O efeito do encontro entre o natural/doméstico e o estrangeiro/ desconhecido (processo vivenciado nesses dias) é o que pode ser apreciado neste catálogo.

Provoquei que cada artista escrevesse sobre seu próprio processo em Britânia. Decidi transcrever suas histórias no catálogo para que o leitor possa desfrutar o mais próximo possível dessa experiência do outro, daquele estrangeiro tão próximo, já que ninguém está tão longe assim de Britânia.

Enfatizo que cada artista escreveu sobre sua produção na residência artística que culminou com a obra apresentada no Museu de Arte de Britânia. Vocês poderão desfrutar, simultaneamente, da leitura e das ilustrações fotográficas, da produção da obra e da exposição.

Suyan de Mattos
Artista e curadora da Residência Artística Volante/MasKarada Britânia,
28 de setembro de 2023