A saga mitológica do povoado Britanique – aquele que veio de perto é uma instalação de parede da artista Suyan de Mattos (nascida no Rio de Janeiro, em 1962, e atualmente reside em Brasília/DF). Sua obra é constituída por tecidos estampados de algodão e molduras antigas adquiridas em lojas de antiguidade.
Suyan apresenta seis peças que tratam da história e da memória da cidade de Britânia. Na primeira obra, a artista pintou o retrato de um homem anônimo, deixando somente os olhos à mostra, com a intenção de que o público percebesse que esses olhos estavam atentos para o Lago dos Tigres. Na parte inferior à esquerda, podemos perceber as margens do citado lago. A segunda obra, logo abaixo da primeira, é a paisagem da cidade de Britânia, que permite a afirmação de que é um mapa poético, com um olhar sensível ao lugar. Na parede fronteiriça, podem-se vislumbrar quatro obras que retratam a simbologia da cidade.
Suyan interpreta Britânia a partir do peixe piranha, do passarinho, do jacaré e do tigre. A intenção da artista não é discorrer literalmente sobre uma memória histórica de Britânia, mas apresentar sua compreensão desse espaço urbano com uma percepção artística.
A função dos tecidos é unir por procedimentos delicados o pensamento da artista para provo car o bucólico, inspirar encantamento e seduzir o povo britaniense.
Adendo: fazia parte da instalação uma piranha morta encontrada pelo artista Eduardo Mariz, que foi colocada num pote de barro construído pela artista. A piranha apodreceu e não pode participar da mostra no MABRI, mas Suyan decidiu continuar a trabalhar neste tema, compran do uma piranha empalhada. Ela também adquiriu um brinquedo de plástico no formato de uma tigresa com um filhote na boca. Tudo isso para criar o Manifesto da Piranha. Este manifesto (piranha, tigresa e filhote) estará dentro de uma redoma de acrílico sobre grama artificial de cor verde com uma plaquinha de metal escrita:
Aquela que é do lago.
Aquela que não é do lago.
Ela tem existência territorial.
A outra tem existência imagética.
Façamos a revolução Carajá, já.
Vivamos por meio do direto sonâmbulo.
Manifestemos o que é nosso.
Pratiquemos cada vez mais o exercício do deperecimento.
Mordamos o intruso.
Cicatrizemos.
A artista Suyan de Mattos, ao caminhar pela cidade de Britânia, procurou algo que traduzisse a hostilidade de Derrida, já que, na casa, esse sentimento não esteve presente em nenhum dia – mesmo com os artistas brincando, falando que esta edição era o BBBritânia.
A menos de 80 metros da casa que hospedou os artistas estavam o Lago dos Trigres, o Cris to e o termômetro da cidade, que variava de 35°C à noite até 47°C durante o dia. Os artistas encontraram no calor exacerbado da cidade o sentido de hostilidade e Suyan aproveitou para conceber a performance “Às vezes, fazer algo não leva a nada: por que esperar um bloco de gelo derreter durante duas horas?”, uma homenagem ao artista Francis Alÿs. A artista colocou em frente ao termômetro da cidade uma barra de gelo medindo 60 x 20 x 7 cm sobre o asfalto de 43°C às 16h. A barra demorou duas horas para derreter completamente. Esperava-se derreter em menos de 15 minutos, tão terrível era a sensação de calor.