Isabela Couto

Onça tigre piranha Caderno — aquarela, nanquim, grafite e lápis de cor sobre papel 27 x 37 cm (aberto) 2023

Onça tigre piranha é a história de uma onça que se traveste de tigre e piranha para sobrevi ver em Goiás. O enredo começa com um casal de onças que caminha tranquilamente na floresta, mas se depara com um grupo de caçadores que o alveja a balas e queima a mata. A onça  sobrevivente, sem casa, caminha em direção à cidade mais próxima, Britânia. Ali se depara  com Cristo e recebe uma iluminação. A partir daí, a onça descobre um disfarce para caminhar  de modo seguro entre os humanos: corpo vermelho (piranha) e pelagem diferenciada na face  (tigre). Agora a onça está imune às investidas humanas. 

A motivação para a narrativa começou quando escutei pela primeira vez o nome Lago dos  Tigres – lago que banha Britânia. “Por que não Lago das Onças?”, questionei imediatamente,  visto que não existem tigres no Brasil. Foi-me explicado que o nome foi dado por estrangeiros  que escutaram barulhos parecidos com o de tigre no lago e por isso escolheram esse nome.  Ficou claro para mim que existiam muito mais onças na Britânia daquele período e que a urbanização e criação de fazendas foi aos poucos as afastando e as exterminando. Goiás é o berço  das onças no Brasil, mas é também o lugar onde há caça predatória contra o mamífero, que está na lista dos animais ameaçados de extinção. 

As páginas dedicadas à história estão na segunda parte do caderno e foram feitas em aquarela, nanquim, grafite e lápis de cor. As páginas iniciais contemplam o tema da residência artística, hospitalidade, onde podem ser encontrados os exemplos que Derrida traz para explicar  a hospitalidade, além da moral e da ética: as leis da hospitalidade e a passagem de Ló em  Gênesis. Ambas as citações apresentam o estrangeiro como salvador em detrimento da figura feminina nativa, simbolizados na história pelo tigre e pela onça, respectivamente. 

De modo descontraído, essa história tem o intuito de trazer novamente as onças para seu  território de origem e reivindicar melhores condições para sua sobrevivência em Goiás. Não só o extermínio direto, mas a queima do cerrado também contribui para a extinção e para a migração de animais silvestres para fazendas e cidades. Os animais migram em busca de alimento,  que já não encontram facilmente, e tornam-se mais vulneráveis longe de seu habitat. 

A história vai ao encontro das preocupações mundiais de preservação do meio ambiente e  traz o alerta de que é preciso dar maior atenção a nossos animais e espécies endêmicas. O  mundo saudável e com bom clima é aquele que preserva suas matas e seus bichos. 

O crânio de onça pertence a Gerson, conhecido como Dr. Saroba, e foi emprestado para  compor uma instalação durante o período expositivo.