Suyan de Mattos

A saga mitológica do povoado Britanique – aquele que veio de perto Instalação – tecidos e molduras antigas Medidas variáveis 2023
Às vezes, fazer algo não leva a nada: por que esperar um bloco de gelo derreter durante duas horas? Homenagem ao artista Francis Alÿs 60 x 20 x 7 cm (BLOCO DE GELO) 2023

A saga mitológica do povoado Britanique – aquele que veio de perto é uma instalação de  parede da artista Suyan de Mattos (nascida no Rio de Janeiro, em 1962, e atualmente reside  em Brasília/DF). Sua obra é constituída por tecidos estampados de algodão e molduras antigas  adquiridas em lojas de antiguidade. 

Suyan apresenta seis peças que tratam da história e da memória da cidade de Britânia. Na  primeira obra, a artista pintou o retrato de um homem anônimo, deixando somente os olhos à  mostra, com a intenção de que o público percebesse que esses olhos estavam atentos para o  Lago dos Tigres. Na parte inferior à esquerda, podemos perceber as margens do citado lago.  A segunda obra, logo abaixo da primeira, é a paisagem da cidade de Britânia, que permite a  afirmação de que é um mapa poético, com um olhar sensível ao lugar. Na parede fronteiriça,  podem-se vislumbrar quatro obras que retratam a simbologia da cidade. 

Suyan interpreta Britânia a partir do peixe piranha, do passarinho, do jacaré e do tigre. A  intenção da artista não é discorrer literalmente sobre uma memória histórica de Britânia, mas apresentar sua compreensão desse espaço urbano com uma percepção artística. 

A função dos tecidos é unir por procedimentos delicados o pensamento da artista para provo car o bucólico, inspirar encantamento e seduzir o povo britaniense.  

Adendo: fazia parte da instalação uma piranha morta encontrada pelo artista Eduardo Mariz,  que foi colocada num pote de barro construído pela artista. A piranha apodreceu e não pode  participar da mostra no MABRI, mas Suyan decidiu continuar a trabalhar neste tema, compran do uma piranha empalhada. Ela também adquiriu um brinquedo de plástico no formato de uma  tigresa com um filhote na boca. Tudo isso para criar o Manifesto da Piranha. Este manifesto  (piranha, tigresa e filhote) estará dentro de uma redoma de acrílico sobre grama artificial de cor  verde com uma plaquinha de metal escrita: 

Aquela que é do lago.
Aquela que não é do lago.
Ela tem existência territorial.
A outra tem existência imagética.
Façamos a revolução Carajá, já.
Vivamos por meio do direto sonâmbulo.
Manifestemos o que é nosso.
Pratiquemos cada vez mais o exercício do deperecimento.
Mordamos o intruso.
Cicatrizemos.

A artista Suyan de Mattos, ao caminhar pela cidade de Britânia, procurou algo que traduzisse  a hostilidade de Derrida, já que, na casa, esse sentimento não esteve presente em nenhum dia –  mesmo com os artistas brincando, falando que esta edição era o BBBritânia. 

A menos de 80 metros da casa que hospedou os artistas estavam o Lago dos Trigres, o Cris to e o termômetro da cidade, que variava de 35°C à noite até 47°C durante o dia. Os artistas  encontraram no calor exacerbado da cidade o sentido de hostilidade e Suyan aproveitou para conceber a performance “Às vezes, fazer algo não leva a nada: por que esperar um bloco de  gelo derreter durante duas horas?”, uma homenagem ao artista Francis Alÿs. A artista colocou  em frente ao termômetro da cidade uma barra de gelo medindo 60 x 20 x 7 cm sobre o asfalto de  43°C às 16h. A barra demorou duas horas para derreter completamente. Esperava-se derreter  em menos de 15 minutos, tão terrível era a sensação de calor.