Assim como Britânia, as cidades têm uma data e um lugar de fundação, porém algumas delas concentram em seus espaços físicos uma segunda ou terceira camada de memórias de pessoas, de afetos ou não, de eventos e monumentos, cuja peculiaridade impressiona pela originalidade e, às vezes, por características únicas que não temos muito tempo nem espaço para processar, nos momentos em que vivemos esse tempo.
Tendo por referência a História, me propus a executar um mapa da cidade de Britânia que lembrasse os mapas medievais, imprecisos pela condição de desconhecimento dos cartógrafos daquilo que iam retratar, mas elegantes como os manuscritos medievais que apresentavam ilus trações, douração e textos escritos sob pequenas imagens que monges desenhavam e coloriam. Ali havia informações geográficas dos países, acidentes naturais, como rios, mares e montanhas, informações históricas, lendas, desenhos de personagens, plantas, animais e informações as mais variadas sobre as terras retratadas.
Essa foi a proposta para o mapa de Britânia. Na qualidade de mapa de cidade, escolhi am pliar a malha urbana e representar as ruas, os lugares que frequentamos, a casa onde ficamos, além dos monumentos, templos religiosos, museus, plantas, animais e lugares visitados. Infor mações coletadas no cotidiano da residência e que apontavam para as relações de convivên cia, receptividade e aceitação das culturas em suas diversidades entraram na composição dos levantamentos do mapa e, por sua vez, incentivaram as trocas culturais no âmbito de hábitos alimentares, por meio de frutas e peixes, e de hábitos sociais, como banho no Lago dos Tigres aos domingos, construindo, assim, relações de mão dupla, de troca e hospitalidade entre as duas culturas, a local e a temporariamente residente.
O estudo do mapa da cidade e de sua configuração, do curso do lago e da localização da rodovia dentro do espaço urbano facilitou a ampliação do traçado das ruas. Dois mapas foram desenhados para receber as representações dos aspectos físicos, lendários e sensíveis percebidos durante a estada na cidade. Símbolos da região, como tucunaré, piranha, pacu, tigre, guaxe e seriema estão presentes. Os materiais utilizados para a realização dessas representações em linogravura foram folhas de papel Canson de algodão, pequenas aquarelas, fotografias feitas durante a residência em Britânia, impressas, recortadas e coladas no mapa, caneta nanquim e pregos.